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“No sé cuántas almas tengo”, por Fernando Pessoa

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    Editor Jefe
  • Ago 04, 201611:20h
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No sé cuántas almas tengo.
Cada momento mudé.
Continuamente me extraño.
Nunca me vi ni me hallé.
De tanto ser, tengo el alma.
Si tienes alma no hay calma.
Quien ve es sólo lo que ve,
quien siente ya no es quien es.
Atento a mí y lo que veo,
ellos me vuelvo, no yo.
Cada sueño o mi deseo
no es mío si allí nació.
Yo soy mi propio paisaje,
el que asiste a su pasaje,
diverso, móvil y sólo,
no sé sentir donde estoy.
Así, ajeno, voy leyendo
como páginas, mi ser,
sin prever eso que sigue
ni recordar el ayer.
Anoto en lo que leí
lo que juzgué que sentí.
Releo y digo: “¿Fui yo?”
Sabe Dios, que lo escribió.

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

24-8-1930

Fernando Pessoa

En: Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa.
(Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.)
Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

Versión: Ernesto Hernández Busto.

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